Mostrando postagens com marcador Prosa poética. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Prosa poética. Mostrar todas as postagens

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Elevação

Eles estavam parados. Um fitava o outro com um olhar abobalhado e fixo. Ela sorria, por fora e por dentro e ele contemplava cada detalhe de seu rosto como se fosse seu último segundo de fôlego neste mundo. Ele levantou sua mão e acariciou o rosto dela. Começou pelas bochechas e tocou sua sobrancelha com o polegar, como se a penteasse. Olhou no fundo de seus olhos, olhou no fundo de sua alma e sentiu a plenitude, o nirvana ou como queiram chamar um estado de gozo supremo pelo simples ser, pelo simples existir. Ser para Ela. Ser com Ela. Existir para Ela. Existir com Ela. Tal sensação que é tão buscada por tantos meios foi sentida por um instante no momento em que duas almas acenaram uma para a outra pela janela do olhar.

Matheus Santos Rodrigues Silva

Para Priscila Leão Guimarães

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Rex

Os anjos levantaram numa prece rouca e calada para anunciar a sentença.
Aquele que desafiou as leis dos céus e dos infernos deve pagar!
A divindade outrora partida em duas metades jamais pode se juntar!

A perfeição é procurada por cada alma que vive ou morre neste mundo. Os vivos a procuram em seus atos, os mortos em sua futura “paz”. Os fortes a buscam no desafio, os fracos na justiça divina.
O medo inocente de cada passo reverbera em seus tímpanos. Ele não teme. Ele só guia.
Era tão certo que se errasse... mas ela temia. Duas almas estrangeiras de um mundo patético. O que era aquilo?
A vida transpassou o mero ato de mover-me e respirar. Estava em cada gesto e em cada toque e se reproduzia patologicamente em acessos de descontrole.
Foi impossível resistir ao magnetismo das almas. Assim foi cometido o pecado. O paraíso não pode ser tocado por mãos humanas.
Negada foi a graça de viver. Um simples sobreviver foi consentido por piedade, que é a maior graça neste mundo miserável.
Foram convocadas as criações humanas de maior temor. As horas, os dias, as semanas, os metros e os quilômetros, para uma missão simples: matar.
Da forma mais simples e cruel ou mais complexa e piedosa... não importava. Contanto que matasse.
Puseram uma alma em sua decisão senil de permanência e a outra em tentativas vãs de fuga... tolos...
Dias e quilômetros se passaram com uma aparente morte do paraíso alcançado, mas ele não morreu... Moribundo estúpido que não sabe a hora de deixar o corpo e viver nas planícies do lembrar junto com tantas lembranças... Por que?
Não morrer não fez do moribundo tolo um Augusto, mas apenas um César. Sufoquem-no!
Com mil outros corpos e apenas um; com mil outros fatos vãos e trivialidades; com almofadas e travesseiros, com o que houver.
Calado. Paraíso calado que em vis momentos se livra da mordaça e liberta o som mais triste, diabólico e mortificante. Um grito de horror e desespero que gela as almas e crepita os ossos de todo vivente e todo aquele que se decompõe nas valas imundas do que chamam de civilização. Palavras a tanto esquecidas, por que lembrá-las? Um grito da mais pura imundice da natureza humana: Eu te amo!

Somos a marca da besta e a crença
de que o que sobrevive as farpas deve acabar
pois é só um borrão torpe a se apagar!

Matheus Santos Rodrigues Silva

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

A beleza da poesia e sua vileza estúpida e vazia são dois pólos de um mesmo norte...

Figura bela e doce de um pensar esquecido no tempo.
Esquecido pra ser lembrado e lembrado ao tocar do vento.
Luz que invade o calabouço, eu ouço o teu passar.
É  venerado o  teu brilho, seja de sol ou de luar.

Mancha, mácula eterna. Débil praga de um só lamento.
Verdade sutil, escárnio. Corte sangrento que em vão lamento.
Doçura... pura...

Belo. Sortido estado de brilho e alento de um espírito alegre.
Ele sorriu aos transeuntes. Queria passar.
Fitou cada semblante com um só olhar que era tão ambíguo...
O que sentiria? Nada importava. Nada importa de fato. O entendimento escapa do devaneio. Não é válido...
Dançou. Com mil musas diferentes de mil lábios quentes e olhos que reluziam um único pensamento: belo!
Cansadas as musas vieram as ninfas, depois as tulipas e rosas e margaridas... Todas esquecidas pela sacra memória que olve a si mesma.
A música tocava-lhe os tímpanos e só lhe dizia uma coisa: Sois belo.
Ele sabia. Tinha plena certeza do estado débil e variado que podia causar o seu olhar, seu toque, seu som. Tinha certeza de ter vivido o suficiente pra entender isto e isto lhe era odioso...
Alegria. Mil vezes a trouxe como um anjo que pende do céu com uma flor e uma boa nova. Foram tantas que ele mesmo se alegrava com o que trazia. A doce lembrança do bem feito era consoladora. Lhe trazia a sensação de utilidade e significância.
Estranho... essas lembranças nunca se findavam com algo bom...
Dor. Ela esteve lá em cada sensação. Com cada musa. A primeira que ele conheceu lhe impôs a tirania de mil navalhas antes de tomá-lo em seus braços e sorrir. Sim. Ela sorriu pra ele e tudo se acalmou.
Em cada passo que dera pôde ver que a dor acompanha todos os traços de alegria. Como o som estridente do violino acompanha as cordas mais graves numa harmonia plena. A dor que causara, a dor que sentira... faziam parte do mesmo enlace de suas alegrias.
Elas lhe causavam prazer. A plenitude de seus sentimentos lhe causava prazer em todos os pontos. Dores e felicitações lhe eram belas como são belas as pétalas e os espinhos de uma rosa.
Ele aprendeu a ser tudo, a sentir tudo, a viver tudo. Cada laceração nova em seu peito lhe dava a certeza de que estava vivo. Cada gota de sangue era a prova de sua existência e se misturavam com cada sorriso...
Ele deu tudo a elas. Tudo que elas quiseram receber. Cada gesto, cada toque, cada olhar e sensação que lhes eram próprias. Tirou cada uma de seu paraíso ou inferno e as levou ao limbo das sensações humanas. Ao âmago do ser que sente e é consciente disso.
Cada significância limitante perdeu  o significado.
Ele as feriu. Arrancou-lhes pétalas, espinhos, seiva, carne, sangue, saliva, suor e sons.
Cada pedaço o habitava. Num lugar único que a mais ninguém era permitida a entrada.
Perguntavam muitos: O que seria aquilo?
Um louco, alguns diziam.
Talvez um anjo. Atirado dos céus pelo pecado de amar.  Um híbrido entre o mais divino e o mais profano. O mais tentador e o mais edificante. Algo entre o sacro e o diabólico... um ser humano.

Matheus Santos Rodrigues Silva